'BORA P'RA BIBLIOTECA ESTUDAR UMA BECA
PROGRAMA:
- disponibilização de livros de apoio à realização dos exames nacionais.
- esclarecimento de dúvidas pelos professores das várias disciplinas.
Há uma grande beleza nas pistas que a natureza nos oferece e todos nós a podemos reconhecer sem nenhum treino matemático. Podemos ser tentados a pensar que o crescimento das plantas e animais, por causa das suas formas elaboradas, é governado por regras muito complexas. Surpreendentemente, isso nem sempre é verdade, como as conchas e os búzios exemplificam: o seu crescimento pode ser descrito por leis matemáticas admiravelmente simples. Esta ideia de que a matemática se encontra profundamente implicada nas formas naturais remonta aos gregos antigos. Citando o matemático inglês I. Stewart, «a matemática está para a natureza como Sherlock Holmes está para os indícios». Todos nós já reparámos que a concha de qualquer molusco pequeno é idêntica à concha de um molusco grande da mesma espécie, com excepção do tamanho. Uma é um modelo exacto, à escala, da outra. As conchas, com a sua forma auto-semelhante, podem ser representadas por superfícies tridimensionais, geradas por uma fórmula relativamente simples, requerendo somente matemática elementar. Maravilhosamente, apesar da simplicidade dessa equação, é possível descrever e gerar uma grande variedade de tipos diferentes de conchas. Quais? Todos nós (com muito poucas excepções!), como veremos nesta palestra.
Quem não lembra As Aventuras de Huckleberry Finn ou Tom Sawyer?Venho brincar aqui no Português, a língua.
Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia.Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações.Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão.Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
Fonte: http://www.dsignos.com.br/curiosidades/DS_Texto_Perguntas%20a%20LP_MiaCouto.pdf• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações.
E é coisa que não se termina.
Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança.
É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.
Mia Couto
A poesia, vou dizer-vos o que é: eu tinha uma avó velhíssima, de quase cem anos, que perdera já a memória do presente. Não reconhecia as filhas, que a não deixavam nunca só e a serviam continuamente. Não reconhecia os lugares da casa, a porta chapeada de zinco que abria para o caminho, a outra porta pequena que abria para o quinteiro. Mas, às vezes (eu fixo-me numa ou duas em que assisti a isso), ficava atenta à chuva que caía, e ordenava, levantando a mão tão branca e ociosa, ela que trabalhara tanto e amassara a farinha e carregara tantas abadas de legumes e de feijão, e carregara ao peito os filhos também. Ela disse, olhando pela janela a eira inundada: «Vem ali o teu pai e não tem casaco. Leva-lhe um casaco para que a chuva o não molhe.» Era uma cena que ela reproduzia fielmente passados mais de quarenta anos, e isso era poesia.*A melhor impressão que a poesia nos pode dar é esta: ficar de coração vagabundo, deixando a vareja estalar na janela as asas grossas, e não dar por isso, como um cão surdo.
Prof. Esmeralda LopesPara Santa Sofía de la Piedad, a redução dos habitantes da casa devia ter sido o descanso a que tinha direito depois de mais de meio século de trabalho. Nunca ouviram uma queixa àquela mulher sigilosa, impenetrável, que semeou na família os germes angélicos de Remedios, a bela, e a misteriosa solenidade de José Arcadio Segundo; que consagrou toda uma vida de solidão e silêncio à criação de umas crianças que mal se lembravam que eram seus filhos e seus netos, e que tratou de Aureliano como se tivesse saído das suas entranhas, sem ela própria saber que era bisavó dele. (…) Quando Fernanda chegou lá a casa teve razões para crer que era uma criada eternizada, e ainda que várias vezes tivesse ouvido dizer que era a mãe do seu marido, aquilo parecia-lhe tão incrível que demorava mais tempo a ouvi-lo do que a esquecê-lo. Santa Sofía de la Piedad nunca pareceu importar-se com aquela posição subalterna. Pelo contrário, dava a impressão de que gostava de andar pelos cantos, sem uma trégua, sem um queixume, mantendo arrumada e limpa a imensa casa onde viveu desde a adolescência e que, principalmente nos tempos da companhia bananeira, mais parecia um quartel do que um lar. Mas quando Úrsula morreu, a diligência sobre-humana de Santa Sofía de la Piedad, a sua tremenda capacidade de trabalho, começaram a vacilar. Não era apenas por estar velha e esgotada, mas porque a casa se precipitou da noite para o dia numa crise de senilidade. Um musgo tenro trepou pelas paredes. Quando deixou de haver um lugar limpo no quintal, as ervas daninhas começaram a brotar por debaixo do pavimento do corredor, rachando-o como a um vidro, e saíram pelas gretas as mesmas flores amarelas que, quase um século antes, Úrsula encontrara no copo onde estava a dentadura postiça de Melquíades. Sem tempo nem recursos para impedir os desaforos da Natureza, Santa Sofía de la Piedad passava o dia metida nos quartos a espantar os lagartos que tornariam a entrar durante a noite. Certo dia, de manhã, viu que as formigas vermelhas tinham deixado os alicerces solapados, atravessaram o jardim, subiram pelo corrimão onde as begónias tinham adquirido uma cor de terra e entraram até ao fundo da casa. Primeiro tentou matá-las com uma vassoura, depois com insecticida e, por fim, com cal, mas no dia seguinte estavam outra vez no mesmo lugar, passando sempre, tenazes e invencíveis. Fernanda escrevia cartas aos filhos e não se dava conta da incontível arremetida da destruição. Santa Sofía de la Piedad continuou a lutar sozinha, debatendo-se contra a erva daninha para que não entrasse na cozinha, arrancando das paredes as borlas de teias de aranha que se reproduziam em poucas horas, raspando o caruncho. Mas quando viu que também o quarto de Melquíades estava cheio de teias de aranha e de poeira, mesmo que o varresse e sacudisse três vezes ao dia e que, apesar da sua fúria de limpeza, estava ameaçado pelos escombros e pelo ar de miséria que apenas o coronel Aureliano Buendía e o jovem militar tinham previsto, compreendeu que estava vencida. Então vestiu o coçado fato dominical, calçou uns sapatos velhos de Úrsula e um par de meias de algodão que Amaranta Úrsula lhe oferecera, e fez uma trouxa com as duas ou três mudas que lhe restavam.
─ Rendo-me ─ disse a Aureliano. ─ Isto é casa a mais para os meus pobres ossos.
Aureliano perguntou-lhe para onde ia e ela fez um gesto vago, como se não fizesse a maior ideia do seu destino. Fez, no entanto, por precisar que ia passar os seus últimos anos com uma prima-irmã que vivia em Riohacha. Não era uma explicação verosímil. Desde a morte dos pais que não tinha tido contacto com ninguém da povoação, nem recebeu cartas nem recados, nem nunca a ouviram falar de parente algum. Aureliano deu-lhe catorze peixinhos de ouro, porque ela estava disposta a partir só com o que tinha: um peso e vinte e cinco centavos. Da janela do quarto, ele viu-a atravessar o quintal com a sua trouxinha de roupa, a arrastar os pés e arqueada pelos anos, e viu-a enfiar a mão por um buraco do portão para pôr a tranca depois de ter saído. Nunca mais se voltou a saber dela.
Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão