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domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia - Contributos (2)



A poesia, vou dizer-vos o que é: eu tinha uma avó velhíssima, de quase cem anos, que perdera já a memória do presente. Não reconhecia as filhas, que a não deixavam nunca só e a serviam continuamente. Não reconhecia os lugares da casa, a porta chapeada de zinco que abria para o caminho, a outra porta pequena que abria para o quinteiro. Mas, às vezes (eu fixo-me numa ou duas em que assisti a isso), ficava atenta à chuva que caía, e ordenava, levantando a mão tão branca e ociosa, ela que trabalhara tanto e amassara a farinha e carregara tantas abadas de legumes e de feijão, e carregara ao peito os filhos também. Ela disse, olhando pela janela a eira inundada: «Vem ali o teu pai e não tem casaco. Leva-lhe um casaco para que a chuva o não molhe.» Era uma cena que ela reproduzia fielmente passados mais de quarenta anos, e isso era poesia.
*
A melhor impressão que a poesia nos pode dar é esta: ficar de coração vagabundo, deixando a vareja estalar na janela as asas grossas, e não dar por isso, como um cão surdo.

Agustina Bessa-Luís, Dicionário Imperfeito

Prof. Esmeralda Lopes

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher - Contributos (2)

Isabel Allende conta-nos histórias de paixão


Para ver legendado em português:

http://www.ted.com/talks/lang/por_br/isabel_allende_tells_tales_of_passion.html

Prof. Paulo Mendes

Comemoração do Dia Internacional da Mulher - Contributos (1)

Para Santa Sofía de la Piedad, a redução dos habitantes da casa devia ter sido o descanso a que tinha direito depois de mais de meio século de trabalho. Nunca ouviram uma queixa àquela mulher sigilosa, impenetrável, que semeou na família os germes angélicos de Remedios, a bela, e a misteriosa solenidade de José Arcadio Segundo; que consagrou toda uma vida de solidão e silêncio à criação de umas crianças que mal se lembravam que eram seus filhos e seus netos, e que tratou de Aureliano como se tivesse saído das suas entranhas, sem ela própria saber que era bisavó dele. (…) Quando Fernanda chegou lá a casa teve razões para crer que era uma criada eternizada, e ainda que várias vezes tivesse ouvido dizer que era a mãe do seu marido, aquilo parecia-lhe tão incrível que demorava mais tempo a ouvi-lo do que a esquecê-lo. Santa Sofía de la Piedad nunca pareceu importar-se com aquela posição subalterna. Pelo contrário, dava a impressão de que gostava de andar pelos cantos, sem uma trégua, sem um queixume, mantendo arrumada e limpa a imensa casa onde viveu desde a adolescência e que, principalmente nos tempos da companhia bananeira, mais parecia um quartel do que um lar. Mas quando Úrsula morreu, a diligência sobre-humana de Santa Sofía de la Piedad, a sua tremenda capacidade de trabalho, começaram a vacilar. Não era apenas por estar velha e esgotada, mas porque a casa se precipitou da noite para o dia numa crise de senilidade. Um musgo tenro trepou pelas paredes. Quando deixou de haver um lugar limpo no quintal, as ervas daninhas começaram a brotar por debaixo do pavimento do corredor, rachando-o como a um vidro, e saíram pelas gretas as mesmas flores amarelas que, quase um século antes, Úrsula encontrara no copo onde estava a dentadura postiça de Melquíades. Sem tempo nem recursos para impedir os desaforos da Natureza, Santa Sofía de la Piedad passava o dia metida nos quartos a espantar os lagartos que tornariam a entrar durante a noite. Certo dia, de manhã, viu que as formigas vermelhas tinham deixado os alicerces solapados, atravessaram o jardim, subiram pelo corrimão onde as begónias tinham adquirido uma cor de terra e entraram até ao fundo da casa. Primeiro tentou matá-las com uma vassoura, depois com insecticida e, por fim, com cal, mas no dia seguinte estavam outra vez no mesmo lugar, passando sempre, tenazes e invencíveis. Fernanda escrevia cartas aos filhos e não se dava conta da incontível arremetida da destruição. Santa Sofía de la Piedad continuou a lutar sozinha, debatendo-se contra a erva daninha para que não entrasse na cozinha, arrancando das paredes as borlas de teias de aranha que se reproduziam em poucas horas, raspando o caruncho. Mas quando viu que também o quarto de Melquíades estava cheio de teias de aranha e de poeira, mesmo que o varresse e sacudisse três vezes ao dia e que, apesar da sua fúria de limpeza, estava ameaçado pelos escombros e pelo ar de miséria que apenas o coronel Aureliano Buendía e o jovem militar tinham previsto, compreendeu que estava vencida. Então vestiu o coçado fato dominical, calçou uns sapatos velhos de Úrsula e um par de meias de algodão que Amaranta Úrsula lhe oferecera, e fez uma trouxa com as duas ou três mudas que lhe restavam.

─ Rendo-me ─ disse a Aureliano. ─ Isto é casa a mais para os meus pobres ossos.
Aureliano perguntou-lhe para onde ia e ela fez um gesto vago, como se não fizesse a maior ideia do seu destino. Fez, no entanto, por precisar que ia passar os seus últimos anos com uma prima-irmã que vivia em Riohacha. Não era uma explicação verosímil. Desde a morte dos pais que não tinha tido contacto com ninguém da povoação, nem recebeu cartas nem recados, nem nunca a ouviram falar de parente algum. Aureliano deu-lhe catorze peixinhos de ouro, porque ela estava disposta a partir só com o que tinha: um peso e vinte e cinco centavos. Da janela do quarto, ele viu-a atravessar o quintal com a sua trouxinha de roupa, a arrastar os pés e arqueada pelos anos, e viu-a enfiar a mão por um buraco do portão para pôr a tranca depois de ter saído. Nunca mais se voltou a saber dela.


Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão

Prof. Esmeralda Lopes

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Pensamento da semana

Este livro é para si meu amigo. Foi escrito a pensar em todas aquelas pessoas que gostariam de estudar e de aprender mas que não tiveram ocasião para isso. O meu amigo é um deles. Suponho que é camponês ou operário, rapaz novo ou homem feito, e que já lhe sucedeu ficar a meditar sobre as razões por que acontecem certas coisas que observa. Talvez que o meu amigo já tenha dito lá para consigo, por exemplo: por que será que quando tiro um balde de água de um poço, vai tudo muito bem enquanto o balde está dentro de água, mas quando sai dela pesa que nem chumbo? Por que será? Ou então: que cores tão bonitas serã aquelas que à vezes aparecem no céu, formando um arco, em certos dias de tempo chuvoso? Ou ainda: (...)

(...) Procurei ir ao encontro do seu pensamento e responder às suas prováveis interrogações, sempre do modo mais simples possível, pois sei que o meu amigo não tem os estudos suficientes para compreender certas explicações ou o significado de certos termos que eu deveria usar para ser mais correcto. Não mostre este livro a nenhuma pessoa sabedora porque essa encontraria com certeza muitos motivos de censura nas minhas palavras. Acharia que aqui não estava bem explicado, que lai tinha usado palavras impróprias, que mais adiante não era bem assim como digo, etc., etc.. E tinha razão. Mas não se preocupe com isso. Isto é só para o meu amigo. Quando tiver vagar pegue no livro e entretenha-se a ler.

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho

(Lisboa, 24 de Novembro de 1906 - Lisboa, 19 de Fevereiro de 1997)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pensamento da semana

Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.

Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. 
Rosa Lobato Faria (20 de Abril de 1932 - 2 de Fevereiro de 2010)
Fonte:  Jornal de Letras, Artes e Ideias http://aeiou.visao.pt/um-rasto-de-hortela=f546518